
Brasileiro consome o triplo do açúcar recomendado pela OMS, aponta estudo
A Organização Mundial da Saúde recomenda que o consumo de açúcares livres — aqueles adicionados a alimentos e bebidas, sem contar os naturalmente presentes em frutas inteiras e leite — fique abaixo de 10% do total de calorias diárias, com benefícios adicionais ao ficar abaixo de 5%, o equivalente a cerca de 25 gramas, ou 6 colheres de chá, por dia para um adulto com dieta de 2.000 calorias. Para crianças, cujas necessidades calóricas são menores, o limite proporcional é ainda mais restritivo.
No Brasil, a ingestão média estimada é de cerca de 80 gramas de açúcar por dia — o equivalente a aproximadamente 20 colheres de chá, mais de três vezes o limite mais rigoroso recomendado pela OMS, e ainda acima até do limite mais permissivo de 10%.
Uma pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que analisou dados em três períodos diferentes ao longo dos anos, encontrou participação de açúcares de adição acima de 10% do total calórico em todas as classes sociais analisadas — ou seja, o consumo excessivo não é um problema restrito a uma faixa de renda específica, embora as fontes desse açúcar variem entre elas.
O problema raramente vem do açucareiro em cima da mesa: estima-se que a maior parte do açúcar de adição consumido no dia a dia esteja escondida em produtos industrializados. Refrigerantes e sucos de caixinha costumam ser os maiores contribuintes isolados — uma única lata de refrigerante já pode conter o equivalente a 8-10 colheres de chá de açúcar, praticamente o limite diário recomendado em uma única bebida. Molhos prontos (tipo ketchup e molho para salada), pães industrializados, cereais matinais açucarados e iogurtes com sabor também aparecem frequentemente entre os maiores contribuintes, muitas vezes sem que a pessoa perceba.
Um dia comum ilustra bem como esse total se acumula sem alarde: café da manhã com cereal açucarado e café adoçado, um suco de caixinha no meio da manhã, refrigerante no almoço, uma barrinha de cereal "saudável" à tarde e um molho pronto no jantar — somados, esses itens facilmente ultrapassam 15-20 colheres de chá de açúcar, sem que nenhum deles pareça, isoladamente, um exagero.
Do ponto de vista biológico, o consumo excessivo e prolongado de açúcar contribui para picos repetidos de glicose e insulina no sangue, o que ao longo do tempo pode favorecer resistência à insulina — um dos mecanismos centrais no desenvolvimento do diabetes tipo 2. Também está associado a maior acúmulo de gordura visceral, aumento de triglicerídeos, maior risco cardiovascular e, claro, cáries dentárias.
Diante desse cenário, alguns países adotaram políticas públicas específicas para reduzir o consumo de açúcar em nível populacional. O México criou, em 2014, um imposto sobre bebidas açucaradas que resultou em queda mensurável nas vendas desses produtos. O Chile passou a exigir selos de advertência frontal em embalagens de produtos com excesso de açúcar, sódio ou gordura saturada. Já o Reino Unido instituiu uma taxação escalonada por teor de açúcar, o que levou vários fabricantes a reformular suas bebidas para reduzir o conteúdo açucarado e escapar da cobrança mais alta.
Uma forma prática de identificar açúcar escondido é checar a lista de ingredientes (não só a tabela nutricional) em busca de termos como xarope de milho, xarope de glicose, sacarose, dextrose, maltose e concentrado de suco de fruta — todos são formas de açúcar adicionado, mesmo quando a palavra "açúcar" não aparece diretamente.
Reduzir não precisa ser radical nem imediato: pequenas trocas sustentadas têm impacto real ao longo do tempo, como preferir água ou água aromatizada com frutas no lugar de refrigerante e suco industrializado, checar o rótulo de produtos que parecem "saudáveis" à primeira vista, e preparar mais refeições em casa, onde é possível controlar diretamente a quantidade de açúcar adicionada a cada preparo.
Fontes
- Organização Mundial da Saúde (OMS)
- Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)



